Quando fiz minha inscrição no site do ICMBio para ser voluntária no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, eu não tinha ideia do quão incrível seria essa experiência (pra falar a verdade, me inscrevi sem muita expectativa de ser selecionada inclusive). 

No meu primeiro dia de voluntariado no NGI Abrolhos tive a sorte de fazer uma viagem bate-volta para o Arquipélago. A água cristalina, tartarugas subindo para respirar na superfície, snorkel com dezenas de espécies, um por do sol divino… e essa viagem já me deixou com um desejo enorme de voltar para aquele lugar paradisíaco.

Permaneci no continente pelo período de 15 dias atuando no Centro de Visitantes, recebendo turistas e demais pessoas que iam até o local, passando informações sobre o parque e a biodiversidade local, e também desenvolvendo atividades em colônias de pescadores, escolas e grupos da comunidade. E tive o prazer e o privilégio de voltar para o Arquipélago, para uma permanência de 15 dias e uma experiência inesquecível.

A importância de Abrolhos

O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos é o primeiro parque marinho brasileiro, que inclusive estava comemorando 39 anos de criação no mês de abril, período em que fiz o voluntariado. 

A importância na sua conservação se dá pelo fato de concentrar a maior biodiversidade marinha do Brasil e do Atlântico Sul. O parque é uma unidade de conservação com área de quase 88 mil hectares, que abrange 5 ilhas (uma sob jurisdição da marinha) e formações coralíneas que somente são encontradas neste lugar do mundo.

Berçário das baleias-jubarte, corais, aves e tartarugas. Um levantamento da biodiversidade da região registrou aproximadamente 1.300 espécies, 45 delas consideradas ameaçadas, segundo listas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

O nome Abrolhos é originário dos tempos das navegações portuguesas, onde muitas embarcações naufragaram em virtude dos corais presentes na região, os chapeirões, então sempre havia o alerta “abra os olhos” (fale repetidamente com sotaque do português de Portugal e verá que fica “Abrolhos” =)) . Os chapeirões são formações coralíneas com o formato semelhante a cogumelos, tendo uma altura de até 20 metros, e se “espalhando” próximo da superfície por um diâmetro de até 50 metros.

Aves marinhas de Abrolhos

Mas não é somente da vida debaixo d´água que é composta a biodiversidade de lá. O Arquipélago também é uma importante área de conservação e pesquisa de espécies de aves marinhas. 

Por lá são encontradas cerca de 38 espécies de aves, sendo que 7 delas se reproduzem no arquipélago. Em maior quantidade são encontrados os atobás brancos, atobás marrom, beneditos, grazinas do bico vermelho e fragatas, e em menor quantidade as grazinas do bico amarelo e os trinta réis das rocas.

Com o passar dos dias nas ilhas foi possível aprender a diferenciar os machos e fêmeas, os ninhos de cada espécie, e tive o privilégio de fazer parte do monitoramento anual dos ninhos das grazinas de bico vermelho, identificando a presença ou não de indivíduos, ovos e filhotes (ninhego). A equipe desta expedição participou também do monitoramento dos atobás marrom e dos beneditos.

Trabalho de campo em Abrolhos

O grande objetivo da ida e estada de uma equipe grande (14 pessoas, entre servidores do ICMBio e voluntários) pelo período de 15 dias na Ilha de Santa Bárbara foi a última etapa de um projeto muito importante de controle de espécies invasoras.

O trabalho de campo foi um trabalho bastante intenso, acordando bem antes do sol nascer, andando por lugares com vegetação alta, sol forte, dificuldade de encontrar os pontos de trabalho, sobe e desce de encostas de pedra, mas o privilégio de estar realizando esse trabalho tão importante para a conservação e em um lugar paradisíaco como o Arquipélago dos Abrolhos, fazia tudo ficar mais leve, recompensador. 

Privilégio de trabalhar em Abrolhos

Realizar esse trabalho permitiu, além de ficar morando em uma ilha remota e de controle da Marinha do Brasil por 15 dias, experiências completamente imersivas, aprendizado intenso, que qualquer amante da natureza e profissional da área gostaria de ter.

Cada dia fomos presenteados por um nascer e pôr do sol que mais pareciam uma pintura unindo o céu, o mar e a terra. E não só isso, após um exaustivo turno de trabalho era possível tomar um banho de mar em uma praia remota, como a Praia dos Caldeiros, ou então poder fazer snorkel numa das áreas mais belas do Brasil.

As práticas de snorkel me faziam sentir maravilhada com a quantidade de vida naquele lugar, não precisava de condições de visibilidade perfeitas, nem de muitos minutos explorando que era possível ver sargentinhos, peixes-frade, budiões, cirurgiões, peixes anjo, tartarugas, tubarões, corais, lagostas, ouriços, águas vivas…

Impossível deixar de tentar relatar uma experiência mágica que tivemos em uma das nossas saídas de reconhecimento de snorkel. Estávamos explorando a região entre as ilhas Siriba e Redonda, quando chegamos em uma área muito próxima e sensível da ilha Redonda, e que estava extremamente rasa, nadávamos a favor da corrente, e por ser uma área de baixa profundidade não era recomendável que se movimentasse as nadadeiras, então ficamos ali, não sei se foram alguns minutos, ou apenas uma soma de segundos, mas sem que fosse necessária qualquer orientação ou comunicação, ficamos todas ali, quase imóveis, no silêncio das nossas respirações, em um momento de absoluta paz, observando com encanto toda a vida que nos rodeava, até que as águas nos levassem para maiores profundidades. 

Fazer parte de um grupo e de um projeto do ICMBio que estava atuando para fins de conservação do Arquipélago me permitiu acessar territórios conhecidos como intangíveis, que são o mais alto nível de conservação. As áreas intangíveis são áreas que o acesso somente é permitido para fins científicos, a fim de que as características do ambiente sejam mais preservadas possível.

O lixo plástico em Abrolhos

A Ilha Sueste é uma das duas ilhas do parque que são intangíveis, e que tive a oportunidade de conhecer, ela é o principal habitat e área de reprodução dos atobás marrons. Porém, infelizmente o que mais chamou minha atenção não foi o nível de conservação, mas sim a forma que o ser humano consegue impactar de forma negativa até mesmo os locais mais protegidos.

Esse impacto negativo a que me refiro é com relação ao lixo, e, em especial, ao plástico. Durante o desenvolvimento da atividade neste território superprotegido, foi possível encontrar uma quantidade enorme de garrafas e embalagens plásticas, que chegam até a ilha por conta das correntes marítimas. Algumas embalagens mais novas possibilitam até a identificação da origem, como uma garrafa com o rótulo preservado, de uma água produzida no Vietnã, embalagem que provavelmente foi descartada por embarcações. 

A equipe do ICMBio realiza o recolhimento de todo o lixo encontrado nas ilhas e compila os dados para análise de quantidade, origem, tipo de material… Mas o ideal é que não fosse necessário esse tipo de análise, por isso é tão importante que sejamos conscientes de como nossa rotina diária afeta até mesmo locais tão distantes de onde moramos.

O farol de Abrolhos

Toda a paisagem do Arquipélago é maravilhosa, e para completar, a Ilha de Santa Bárbara conta com um imponente farol. Eu gosto muito de faróis, e dessa vez tive a oportunidade de subir até o seu topo, assistir o pôr do sol lá do alto, com uma esplêndida visão 360° e ainda acompanhar o procedimento de ligação do mesmo. O farol é de origem francesa e foi instalado no ponto mais alto da ilha no ano de 1861, possui 22 metros de altura e o seu alcance luminoso é de aproximadamente 95km, o segundo farol marítimo mais potente do mundo. Sua visitação depende de autorização da Marinha. 

Durante o período de estada no Arquipélago também tive a oportunidade de fazer uma pequena palestra sobre sustentabilidade para a equipe do ICMBio, voluntários e integrantes da marinha, abordando temas já tratados aqui no site. Também foram ministradas aulas sobre corais, aves marinhas e peixes.

Trabalho em equipe

Por fim, mas não menos importante, essa experiência vai ficar marcada também pelas pessoas que fizeram parte dela. Além do trabalho em equipe, dividir risadas, cantorias, choros, desabafos, discussões, histórias, casa, quarto, banheiro e tarefas diárias com pessoas de diferentes personalidades, lugares, ideias, opiniões, é uma vivência muito enriquecedora. E um detalhe super importante a ser ressaltado aqui é que a equipe era predominantemente feminina, mulheres maravilhosas, fortes, que estão mostrando que todo lugar é lugar de mulher. 

Foram apenas 15 dias, mas os aprendizados e experiências foram incontáveis, e esse relato é um resumo, onde tentei trazer os pontos mais interessantes dessa vivência.

Curiosidades de Abrolhos

Já finalizando, um jogo rápido com algumas curiosidades:

  • a água disponível na ilha é água de chuva, portanto, toda a água para consumo deve ser trazida do continente;
  • a energia elétrica da ilha é fornecida através de geradores movidos a óleo diesel, já está sendo desenvolvido um estudo para implantação de energia solar por lá;
  • lá tem internet =) sim, mesmo em um lugar tão remoto, tínhamos comunicação fácil com o mundo;
  • a ilha tem uma população considerável de bodes e cabras, no período que estávamos lá vimos vários cabritinhos recém nascidos, e também adotamos um, que foi levado para o continente;
  • os calangos, ou lagartos, também são habitantes da ilha, vistos em grande quantidade por lá, e também são objeto de censo (contagem para controle populacional).

Agora sim, pra encerrar… quando se chega na Ilha Santa Bárbara é possível ver uma frase pintada no concreto “Abrolhos é só para quem sabe amar”, e depois desses dias lá, eu pergunto, tem como não amar?

ABROLHOS É PRA QUEM SABE AMAR

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